sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Espaço disputado


O altruísmo e o pensamento a longo prazo existem, como também existe o individualismo e imediatismo. Essa coexistência de opostos em um mesmo indivíduo é característica da denominada hipermodernidade por Gilles Lipovetsky, ou seja, da atualidade.

É evidente essa característica da hipermodernidade no frenesi de preocupação com o meio ambiente, que é promovido pela mídia. De certa forma a questão ambiental entrou na lógica da moda e muitos adotam esse diálogo devido a isso, sem compromisso de fato de adotar uma ideologia ambientalista em todas as esferas. A preocupação ambiental, que seria uma ação altruísta e um pensamento a longo prazo, é adotada por um indivíduo que em outros âmbitos têm ações individualistas, como por exemplo não se importar com a desigualdade social ou outros problemas. São vários os exemplos de indivíduos que convivem com tal ambiguidade, já que como pertencentes a hipermodernidade são volúveis e cada vez mais hedonistas, no geral.

O fato dos indivíduos terem tais características faz com que seja necessário uma flexibilização das ideias, se não também seria difícil uma coexistência delas. Um exemplo claro é poder se comprar camisetas do Che guevara, bottons anarquistas e tirar fotos das novas comprar com o mais novo iphone. Se a pessoa de fato adotasse a doutrina puramente, essas ambiguidades não seriam possíveis, então se assimila diversas teorias sem a densidade de significado que no passado possuíam, não importando se são na essência opostas. Dessa forma o altruísmo e o pensamento a longo prazo também foram flexibilizados e adotados quando convenientes. Um exemplo são normalmente os membros da elite que sempre doam roupas velhas em campanhas de caridade, mas quando é necessário votarem escolhem políticos que mantêm a situação de miséria das classes mais baixas, sem a menor assistência.

Pode soar hipócrita tal exemplo, mas não é hipocrisia e sim a flexibilização do que seria altruísta e pensamento a longo prazo, pois a pessoa não só adota discursos, mas ações que indicam pensamentos que aparentemente são antagônicos, sem confusão ou peso na consciência. Portanto, flexibilizados o altruísmo e o pensamento a longo prazo encontram seu espaço na hipermodernidade mesmo tendo de conviver,ás vezes em um mesmo indivíduo, com seus opostos

A verdade sobre Frankenstein


A verdade segundo Michel Foucault é uma construção humana. Dessa forma, o que é considerado verdade varia de indivíduo para indivíduo conforme aspectos históricos, sociais e religiosos. Dessa forma, o que é verdade pode ser manipulado facilmente com outros fins.

Exemplo claro de manipulação foi o realizado pelas propagandas nazistas, que reforçavam um preconceito pré-existente e moldavam a personalidade das pessoas para apoiarem o regime. Isso só foi possível devido ao fato dos humanos se construírem a partir das verdades. Como no quadro ''Soft Self-Portrait'' de Salvador Dali, no qual o rosto se molda apoiado em varetas. Esses apoios representariam metaforicamente as verdades individuais que sustentam o que seria a pessoa. Essa, por sua vez, é tão mutável quanto a própria verdade que a sustenta, por isso a aparência do rosto estar se derretendo no quadro. Segundo a psicanálise, os homens ao construírem a sua identidade partem da imitação de padrões sociais de convívio e incorporam certas verdades essenciais para embasarem suas ações e pensamentos. Então quem controlasse essas verdades que constituem o ser teria um enorme poder em mãos.

É visível a verdade como ferramenta de poder no caso recente da polêmica dos dados de divulgação do IPCC. Há indícios de que houve fraudes nos dados para tornar o aquecimento global uma preocupação maior e desencadear ações mais efetivas de combate a ele. Foi o que de fato ocorreu, com o falseamento de certas informações os cientistas conseguiram um frenesi midiático e atingiram seu objetivo implícito. Saindo do mérito da ética na ciência, se até uma organização respeitada, até o recente escândalo, pelo mundo todo foi capaz de manipular as verdades divulgadas, porque isso não ocorreria em outros âmbitos?

Portanto, conforme os versos do poema de Fernando Pessoa ‘’Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?/Será essa, se alguém escrever, a verdadeira história da humanidade’’ a verdade é construída e manipulada pelo próprio homem. Esse também se constrói a partir dela e é manipulado por ela também. Então, a relação entre a verdade e o ser humano é ambígua onde hora a criatura se volta contra o criador, em uma espécie de Frankenstein que assombra a existência humana e da qual a dependência não podemos nos livrar.